segunda-feira, 30 de julho de 2012

Já que eu estava com a mão na massa...


Já que eu estava com a mão na massa...

Fui deixar um "singelo" comentário no podcast do Sala de Dança (alias, RECOMENDADÍSSIMO).
 E achei que devia deixar aqui tb.


Estava ansiosa por este podcast.
Vou seguir a linha que vcs usaram e falarei apenas do que eu conheço. E sim, mais um desabafo muito pesado…
Desde que, há muitos anos, houve um movimento que proibia professores de dança ( sem formação em Educação Física) de dar aulas em academias, eu passei a me questionar sobre a validade, ou não, de uma graduação. Já que naquela época tinha a firme convicção que quem deve dar aula de dança é professor de dança, que viveu dança, que pensa sobre dança.
Com 23 anos resolvi fazer uma graduação, ainda não havia assumido a dança como profissão, e me decidi pela faculdade de Educação ( Pedagogia). Pra que vcs entendam onde quero chegar vou deixar uma coisa beeeem clara: eu não deixei de ser ( na forma de pensar) ginasta quando me dediquei a estudar dança, não deixei de ser ginasta e bailarina quando me decidi a estudar Educação. Portanto meu olhar estava, sim, permeado por questões que envolviam o educar o corpo (seja na ginastica seja na dança – qualquer dança).
Foi uma graduação maravilhosa e eu realmente acredito, por mais que algumas pessoas achem esta posição radicalíssima, que só quem fez uma graduação em Educação está de fato preparado para ir para uma sala de aula em ensino formal. Porque só quem passou por esta formação sabe o valor que ela tem para refinar nosso olhar (ato de ver e também forma de pensar) sobre o ser humano, os processos complexos de aprendizado e a tarefa árdua que é o ensino.
Por isso mesmo eu tinha um olhar de educadora em minhas aulas de dança, enquanto aluna. Isto me fez repensar o que eu acreditava ser certo enquanto ensino em dança.
Quando decidi assumir a dança como profissão veio o questionamento: Fazer ou não uma formação em dança?
Cheguei a conclusão que o mercado te leva mais a sério quando se tem um título. Mas não queria que fosse só por isso. Queria que minha formação fosse tão maravilhosa quanto a outra. Por isso esperei e fiz um curso profissionalizante em Dança Árabe Contemporânea com a Lise Bueno. Foi muito bom, me deu linhas de pensamento sobre a dança árabe, sobre a visão do mercado, sobre o ser profissional, ser bailarina e/ou professora e também sobre o corpo que se move (minhas aulas de anatomia com ela foram melhores que as da graduação!!!). Só depois de pensar muito decidi fazer outro vestibular para a UFRGS e tb fiz ENEM. Passei em primeiro lugar na ULBRA com bolsa e também na UFRGS. Optei pela federal por poder aproveitar minha graduação em educação. Não sei se foi a melhor escolha pq, como qq graduação numa federal, eles pensam que todo mundo é “filhinho de papai”, bem nascido e que não faz mais nada da vida.
O curso de dança é uma licenciatura, (http://www.ufrgs.br/ufrgs/ensino/graduacao/cursos/exibeCurso?cod_curso=805).
O perfil dos alunos ainda é de garotada que saiu do colégio a pouco tempo e dançou boa parte da sua (curta) vida. Poucos são os alunos do curso que são profissionais da dança (professores ou bailarinos) , que vivem da dança, até pq como já disse, eles pensam que nós não fazemos mais nada da vida, tem aula manhã tarde e noite. A experiência é valida. No currículo temos aulas para que compreendamos o corpo, seu funcionamento e mecanismos. Abrangem a historia, pedagogia, psicologia e até certo ponto antropologia. Quanto a técnicas temos clássico, contemporâneo, danças populares regionais, nacionais e internacionais. Algumas disciplinas versam sobre teorias da dança. Temos ainda uma formação voltada a produção de espetáculos em termos de gestão, concepção, direção e cuidados como iluminação e fotografia. Sem contar as disciplinas de pedagogia. Falando assim ele parece 8ª maravilha do mundo. Mas de pouco, muito pouco nos adianta ter estas disciplinas e o corpo docente que conta com Luciana Palludo, Flavia Valle, Aline Hass, Rubiane Zancan, se os alunos não estão a altura para aproveitar as aulas. As discussões se tornam rasas, as disciplinas não atingem a profundidade que deveriam pois as pessoas dão mais valor a técnica do que a práxis.
É desesperador ter o olhar de educadora, cunhada dentro de uma das melhores faculdades de educação do pais, com os melhores mestres/pesquisadores, e depois fazer uma licenciatura… O despreparo da mente, a (sem nenhum exagero) mediocridade ( no sentido mesmo da palavra: sem criatividade ou originalidade, comum, mediano – pq assim o quer ser-, que se orgulha de ser “burrinho”, assume que não gosta de ler) me deixa LOUCAAAAAA! Porque perpetua a ideia de que bailarino não pensa…
(Ai eu me pergunto: Pra que serve mesmo a P%¨&%$ do vestibular?! Não era pra selecionar a “nata”?)
Existe uma diferença enorme entre bacharelado e licenciatura. O que poucas pessoas sabem é que em ambos o que se espera é formar cidadãos conscientes, criticos e participativos na sociedade, ampliar seus horizontes como ser humano e ARTISTA EDUCADOR PESQUISADOR (isso mesmo, sem vírgula ou ife, conceito desenvolvido na UERGS no seu curso de artes dirigido na ocasião pelo atual chefe do curso de pós graduação em pedagogia da arte UFRGS, Giberto Icle. Conceito este que acredito piamente ser possível e altamente almejável), dar arcabouço para refletir a PRATICA EM DANÇA, seja ela em sala de aula, espetáculo ou produção teórica. O conceito de práxis é , ouso dizer, totalmente desconhecido de 90% dos alunos desses cursos.
Algumas pessoas podem descordar, mas não vejo como alguém pode refletir sobre algo que não tem vivência. Vai refletir sobre o quê? Sobre o que não experienciou, sobre o que não dançou, sobre o que não aprendeu, como aprender, sobre o que não assiste, sobre o que não lê?Que profissional será lançado para o mercado? Será que de fato a graduação os prepara para enfrentar o mercado tão exigente que nos espera? Para estas pessoas acredito que não. A melhor graduação do mundo será incapaz de dar a estas pessoas a mentalidade necessária para ser um profissional qualificado.
Prova disso são educadores em dança que nunca cursaram nenhuma graduação e que com toda certeza mereceriam títulos de Dr Honoris Causa pois prestariam um bem a sociedade muito maior que muitos Drs formados com a mentalidade supra citada ( não experienciou,não refletiu sobre nada além do que reproduz sem entender) e estes são incapazes de olhar para outra dança e ter o respeito que alguém que realmente educou seu olhar teria, tenha “formação” ou não.
Pq eu continuo no curso? Lembram, o meu desejo é ser mestre… Eu acredito que se todos os bailarinos e professores em dança que pensam, que refletem, que estudam dança se frustrarem e desistirem ao tentar fazer graduações NUNCA vamos ter bacharéis, licenciados, mestres ou doutores. SIM temos de passar pela parte chata, SIM temos de lidar com gente ignorante, SIM temos de ir lá e mostrar que existe seres pensantes fora do circuito ballet/contemporâneo. Vamos estudar, vamos pesquisar, vamos publicar artigos e livros de qualidade! Ah, mas sai caro fazer um mestrado… Estuda, pesquisa e pede bolsa!
E você ai que está ouvindo o podcast, se tem um TCC, monografia, dissertação, artigo! COMPARTILHA! Descobriu um pesquisador que trabalha com algo relacionado as danças orientais, um blog com informações corretas, bem pesquisado, COMPARTILHA! Livro, publicação, qq coisa! Conhecimento foi feito pra ser compartilhado, ele não se perde desta forma, mas se multiplica.
Bjos!

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