sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Dando a cara a tapa

Eu danço desde que me entendo por gente.
Nem sempre foi fácil. Pelo contrário, sempre foi muito, muito difícil.
Difícil porque qualquer arte é cara. Não é nada barato estudar uma arte. Se você consegue pagar as aulas esbarra   com o custo de cursos extras, que são muitos; figurinos que praticamente se tem que vender um rim por mês pra pagar; sapatilhas, na época da ginástica era uma por mês, no ballet uma por trimestre ( a bandida quebrava as pontas), inscrições em festivais ( quem não é visto não é reconhecido nem lembrado).
Uma vez ouvi Toshie Kobayashi dizer, ao responder  o que precisa-se para ser uma grande bailarina, que não basta talento, é preciso dedicação, bons professores e sim DINHEIRO, sem ele não é possível se aprimorar. 

Se o problema fosse só o dinheiro para investir até que tem como se contornar. Quando era ginásta nós conseguimos o patrocínio do consulado da Alemanha, estranhamente, apesar de ser de um "clube" do estado, nós não tínhamos o apoio para competir... enfim. O que acontecia então? Roubavam descaradamente. Se a uma série tinha nota de partida 6, nós podiamos contar que vinha com 4,5... Tínhamos que ser melhores ainda para poder garantir que teríamos uma nota "justa". Competindo contra meninas que tinham preparadores técnicos individuais e aulas de ballet. A Cris fazia milagre com o material humano que tinha.
Mesmo assim experimentamos algumas vezes o sabor de passar para as finais com várias ginastas em primeiro lugar e algumas medalhas em finais.


A primeira vez que ouvi que era uma bailarina talentosa foi da minha técnica de ginástica dizia que se eu tivesse começado uns 2 ou 3 anos antes, teria sido brilhante. Eu tinha 10 anos.
Quando deixei de ser ginasta, pq estava velha com 17 anos, tentei fazer ballet e nem me deixaram fazer aulas " devia ter começado na infância, agora é tarde..." o irônico é que a mesma prof me deu altas dicas mais tarde e me elogiou muuuuuuuuuuuito na barra... 
"Terias sido uma grande bailarina, pena que não começou a estudar antes."  É incrível, mas parece que só se é capaz de aprender algo quando se é criança !

A unica dança que me aceitou sem reservas foi a dança do ventre.
A minha primeira prof era a pessoa mais doce desse mundo. Sempre que eu dizia que aquilo não era pra mim ela me dizia que era para todas...

Isso foi há treze anos.
Em treze anos eu já dancei e competi com bellet, contemporaneo, jazz, tenho algumas medalhas do tempo de ginásta. Mas, nunca em tempo algum com dança do ventre.
O tempo foi passando e eu não me sentia pronta, não me sentia apta. Olhava as grandes bailarinas e pensava ainda como lá na primeira aula, não é pra mim...


Até que encontrei uma mestra.
Ela soube tirar o melhor de mim. Nunca me disse que era tarde de mais. E redescobri uma alegria em dançar, um êxtase. Nações podem cair, cometas se aproximarem da Terra que não me abalaria, sequer tomaria conhecimento. Só quando a última nota da música terminasse eu voltaria a mim...
Então os sentidos voltam, o mundo toma forma outra vez e nos últimos tempos, pra minha surpresa, tem pessoas extasiadas aplaudindo a minha dança. Isso é imensurável...
Quando se tem diante de si um velhinho com os olhos rasos dizendo que a dança o lembrou a sua terra... Quando por um instante eu vejo os olhos da minha mestra... É tudo.

Só depois de conquistar isso eu quis me testar. 
Acredito piamente que criticas são construtivas, que sempre temos algo para crescer e aprimorar. 
Por onde começar? Professora, por mais que seja boa, nunca é neutra ao nos dar uma avaliação. Os amigos são tendenciosos e bancas de concursos de dança, na maioria das vezes , e isso é muito triste, nem sabem o que é a dança... Eu queria me por a uma prova de verdade saber se sou boa no que faço, se minha técnica está a contento, por quem entende. E a oportunidade veio até mim. Simplesmente veio a Porto Alegre um dos maiores empresários do mundo árabe para escolher bailarinas para o seu elenco.

Entrar no palco sabendo que na platéia estava um dos maiores empresários do mundo árabe me avaliando, me deixaria aterrorizada, antes, não agora.
Lembro de ter no último instante tirado os sapatos e pensar " É a hora da verdade" a introdução foi terminando, sorri e o mundo desapareceu. 
Depois disso, 9 "excelentes" , foi bom, mas só provou o que eu já sabia...